Enxaqueca e dor de cabeça

Enxaqueca é uma doença neurológica que causa crises de dor de cabeça, em geral latejante, com náusea e sensibilidade à luz e ao som. Quando as crises se repetem em 15 ou mais dias por mês, fala-se em enxaqueca crônica. Há tratamento eficaz para as crises e para a prevenção, incluindo a toxina botulínica.

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Atualizado em

Dr. Gabriel Sampaio Froehner escrevendo anotações clínicas

Toda dor de cabeça é enxaqueca?

Não. Existem dezenas de tipos de dor de cabeça. Os mais comuns são a cefaleia tensional, uma dor em pressão, dos dois lados, geralmente leve a moderada, e a enxaqueca, que costuma ser latejante, de um lado, moderada a forte, piora com esforço e vem acompanhada de náusea e incômodo com luz e barulho.

Diferenciar o tipo importa porque o tratamento muda. E há um dado que surpreende: a enxaqueca é uma das doenças mais incapacitantes do mundo em anos vividos com limitação, embora ainda seja tratada como "frescura" por quem não a tem.

O que é a aura da enxaqueca?

Cerca de um quarto das pessoas com enxaqueca tem aura: sintomas neurológicos transitórios que antecedem ou acompanham a dor. A mais comum é a visual, com pontos brilhantes, linhas em zigue-zague ou falhas no campo de visão que evoluem ao longo de minutos e desaparecem em menos de uma hora.

A aura típica tem esse ritmo lento e reversível. Sintomas súbitos, como perda de visão instantânea ou fraqueza de um lado do corpo, não são aura típica: são situação de emergência.

O que é enxaqueca crônica?

Fala-se em enxaqueca crônica quando a dor de cabeça está presente em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses, sendo pelo menos oito dias com características de enxaqueca. É um quadro que costuma se instalar aos poucos: as crises vão ficando mais frequentes até a dor virar quase diária.

Dois fatores alimentam essa evolução com frequência: o uso excessivo de analgésicos e a falta de um tratamento preventivo adequado. A boa notícia é que a enxaqueca crônica tem tratamento específico, incluindo o protocolo de toxina botulínica.

Mulher em casa massageando a têmpora com a mão
A dor de cabeça que se repete e atrapalha a rotina merece investigação, não apenas mais um analgésico.

Analgésico demais pode piorar a dor?

Pode, e esse é um dos pontos mais importantes desta página. O uso de analgésicos comuns em 15 ou mais dias por mês, ou de medicamentos específicos para crise em 10 ou mais dias por mês, pode causar a cefaleia por uso excessivo de medicamentos. O remédio alivia na hora, mas mantém o cérebro sensibilizado, e a dor volta cada vez mais cedo.

Se você percebe que toma analgésico quase todo dia, não é falta de força de vontade: é um ciclo que precisa de ajuda médica para ser desfeito, com plano de transição e tratamento preventivo.

Quando procurar um neurologista e quando ir à emergência?

Procure consulta quando a dor de cabeça se repete todo mês, atrapalha trabalho ou estudo, exige analgésicos frequentes ou mudou de padrão. Procure emergência, ou ligue 192, quando houver: dor súbita e explosiva, a pior da vida; dor com fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda de visão; dor com febre alta e rigidez de nuca; dor após traumatismo de crânio; ou crise convulsiva.

Como é a avaliação?

A consulta reconstrói a história das dores: idade de início, frequência, duração, características, gatilhos, o que já foi usado e em que dose de dias por mês. Um diário de crises, mesmo simples, vale ouro. O exame neurológico completo procura sinais que indiquem investigação adicional.

Exames de imagem são solicitados quando há sinais de alarme ou achados no exame; na enxaqueca típica com exame normal, o diagnóstico é clínico.

Como é o tratamento?

O tratamento tem dois braços que trabalham juntos:

  • Tratamento das crises: medicamentos para interromper a dor no início, usados da forma certa e com limite de dias por mês para não gerar o efeito rebote.
  • Tratamento preventivo: para quem tem crises frequentes ou incapacitantes. Inclui medicamentos diários de diferentes classes e, na enxaqueca crônica, o protocolo de toxina botulínica a cada 12 semanas.

Completam o plano: regularidade de sono e refeições, atividade física, manejo do estresse e a identificação dos gatilhos individuais. O objetivo é claro: menos dias de dor, crises mais fáceis de tratar e a rotina de volta ao seu controle.

Perfil de mulher com a mão apoiada na testa
O tratamento combina o alívio das crises com a prevenção, sempre com limite de analgésicos.

Perguntas frequentes

Os principais sinais de alarme são: dor muito intensa e súbita, como uma explosão; dor acompanhada de fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda de visão; dor com febre e rigidez de nuca; dor nova após os 50 anos; e mudança clara no padrão de uma dor antiga. Nesses casos, procure emergência ou ligue 192.

Faz, e pode piorar a própria dor. O uso de analgésicos em muitos dias do mês pode gerar a cefaleia por uso excessivo de medicamentos, em que o remédio passa a alimentar o ciclo da dor. É uma das causas mais comuns de dor de cabeça diária, e tem tratamento: reorganizar o esquema com acompanhamento médico.

Funciona para um grupo específico: pessoas com enxaqueca crônica, ou seja, dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês há mais de três meses. Nesse grupo, o protocolo de aplicações a cada 12 semanas reduz a frequência e a intensidade das crises. Para enxaqueca episódica, outros tratamentos preventivos são indicados.

A enxaqueca é uma condição de base genética, então o objetivo do tratamento é o controle, não a cura definitiva. Com o tratamento certo, a maioria das pessoas reduz muito a frequência e a intensidade das crises e recupera previsibilidade na rotina. Muitos pacientes chegam a longos períodos sem crises.

Os gatilhos variam de pessoa para pessoa. Os mais relatados são: irregularidade de sono, jejum prolongado, estresse e o relaxamento após o estresse, período menstrual, alguns alimentos e bebidas alcoólicas, desidratação e excesso de cafeína. Identificar os próprios gatilhos, com um diário de crises, ajuda no controle.

Nem sempre. Quando a história é típica e o exame neurológico é normal, o diagnóstico de enxaqueca é clínico e a imagem pode ser desnecessária. A ressonância entra quando há sinais de alarme, mudança de padrão ou achados no exame. Essa decisão é individualizada na consulta.

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