Por que o sono interessa ao neurologista?
O sono é produzido e organizado pelo cérebro. É durante a noite que ele consolida a memória, regula o humor e elimina substâncias acumuladas ao longo do dia. Por isso, dormir mal de forma repetida afeta a atenção, a memória e a disposição, e piora condições como enxaqueca, epilepsia e dor crônica.
O caminho inverso também existe: várias doenças neurológicas alteram o sono, às vezes anos antes de outros sintomas. Avaliar como a pessoa dorme faz parte da consulta neurológica, dentro do cuidado geral com a saúde do cérebro.
Quando a insônia merece avaliação?
Uma noite ruim antes de um dia importante é normal. Fala-se em insônia crônica quando a dificuldade para adormecer, as várias interrupções ou o despertar muito cedo acontecem pelo menos três vezes por semana, por mais de três meses, com prejuízo durante o dia.
Na avaliação, o primeiro passo é procurar causas: dor, pernas inquietas, apneia, ansiedade e depressão, uso de cafeína e álcool, telas à noite e medicamentos que atrapalham o sono. O tratamento mais indicado para a insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, um conjunto de técnicas que reorganiza hábitos e horários. Medicamentos têm papel em situações específicas e por tempo limitado.
Por que sinto sono demais durante o dia?
Cochilar sem querer em reuniões, na leitura ou ao volante não é preguiça. A sonolência excessiva tem causas que podem ser investigadas:
- poucas horas de sono ou horários muito irregulares;
- apneia do sono, que fragmenta a noite sem que a pessoa perceba;
- medicamentos com efeito sedativo;
- doenças neurológicas, como a doença de Parkinson;
- narcolepsia, condição rara em que o sono invade o dia de forma irresistível.
Sonolência ao dirigir é um sinal de alerta para a segurança e pede avaliação sem demora.
O que é a síndrome das pernas inquietas?
É uma vontade quase incontrolável de mexer as pernas, acompanhada de uma sensação incômoda descrita como formigamento, aflição ou "bicho andando". Ela aparece no repouso, piora no fim da tarde e à noite e alivia ao levantar e andar. O resultado é demora para pegar no sono e noites interrompidas.
A investigação inclui exames de sangue para avaliar as reservas de ferro, porque a falta dele é uma causa frequente e tratável. Também se revisam medicamentos que podem piorar o quadro. Quando necessário, há remédios específicos, prescritos após a avaliação.
Agitação e "luta" durante o sono: o que pode ser?
No sono REM, a fase dos sonhos mais vívidos, o corpo normalmente fica paralisado. No distúrbio comportamental do sono REM, essa paralisia falha e a pessoa passa a encenar os sonhos: fala alto, grita, dá socos e chutes, pode cair da cama ou machucar quem dorme ao lado. Os sonhos costumam ser de perseguição ou defesa.
Esse distúrbio é mais comum em homens acima dos 50 anos e tem relação com a doença de Parkinson e condições semelhantes: pode surgir anos antes dos sintomas motores. Isso não significa que toda pessoa com o distúrbio vá desenvolver Parkinson, mas justifica o acompanhamento neurológico regular. O tratamento reduz os episódios, e medidas de segurança no quarto evitam ferimentos.
Ronco e pausas na respiração: quando investigar?
Ronco alto, pausas na respiração observadas por quem dorme ao lado, engasgos noturnos, boca seca ao acordar e cansaço pela manhã sugerem apneia obstrutiva do sono. Além da sonolência, ela aumenta o risco de pressão alta, arritmias e AVC, e prejudica a memória.
Nessa suspeita, o neurologista solicita o exame do sono e encaminha para avaliação específica com os profissionais que conduzem o tratamento, que pode incluir aparelhos de pressão positiva, aparelhos intraorais e perda de peso.
Quando a polissonografia é indicada?
A polissonografia registra uma noite de sono com sensores que acompanham cérebro, olhos, músculos, respiração e coração. Ela é indicada principalmente quando há suspeita de apneia do sono, de movimentos periódicos das pernas, de distúrbio comportamental do sono REM ou de crises epilépticas noturnas.
Na insônia sem outros sinais, o diagnóstico é feito pela conversa e por um diário de sono preenchido por uma ou duas semanas. O exame só é pedido quando pode mudar a conduta.
Quais hábitos ajudam o sono?
Algumas medidas simples melhoram o sono da maioria das pessoas:
- manter horários regulares para deitar e levantar, inclusive no fim de semana;
- tomar luz natural pela manhã e praticar atividade física, de preferência longe da hora de dormir;
- evitar café, chá preto, refrigerantes de cola e chocolate depois do meio da tarde;
- evitar álcool à noite: ele dá sono no início, mas fragmenta a segunda metade da noite;
- reduzir telas e luz forte na hora que antecede o sono;
- deixar o quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável;
- usar a cama para dormir, e não para trabalhar ou ver televisão;
- se o sono não vier em cerca de 20 minutos, levantar, fazer algo calmo e voltar quando o sono aparecer.
Se, mesmo com esses cuidados, o sono continuar ruim, não use remédios por conta própria. Procure avaliação para entender a causa.
Perguntas frequentes
Pode ser. A insônia tem muitas causas, e várias delas são avaliadas pelo neurologista: dor crônica, síndrome das pernas inquietas, efeito de medicamentos, doença de Parkinson, alterações de memória e enxaqueca. Quando a dificuldade para dormir dura mais de três meses ou prejudica o dia, vale uma avaliação para identificar a causa e definir o tratamento, que nem sempre é remédio.
É uma condição neurológica que causa vontade intensa de mexer as pernas, com sensação incômoda difícil de descrever. Aparece no repouso, piora no fim do dia e à noite e alivia ao andar ou se movimentar. Atrapalha o início do sono. Pode estar ligada à falta de ferro, à gestação, a doenças dos rins e a alguns medicamentos, e tem tratamento.
Falar dormindo de vez em quando é comum e não preocupa. Merece avaliação quando a pessoa grita, dá socos e chutes ou cai da cama como se estivesse vivendo o sonho, principalmente depois dos 50 anos. Esse quadro pode ser o distúrbio comportamental do sono REM, que tem tratamento e relação com doenças como a de Parkinson.
Alguns podem causar tolerância e dependência quando usados por muito tempo, principalmente os calmantes e indutores do sono tomados sem acompanhamento. Em idosos, aumentam o risco de quedas e de confusão. Por isso são indicados por períodos curtos e em situações específicas. Nunca interrompa de uma vez um remédio usado há meses: a retirada deve ser gradual e orientada.
É um exame que registra o sono durante uma noite inteira. Sensores colados na pele medem a atividade do cérebro, os movimentos dos olhos e das pernas, a respiração, os batimentos do coração e a oxigenação. Não dói. É indicada na suspeita de apneia do sono, de movimentos anormais ou de comportamentos durante o sono. Para a insônia comum, geralmente não é necessária.